Uma moeda, vinte e uma taxas de inflação — porque divergem os países da área do euro
Todos os países do euro partilham a mesma moeda e o mesmo banco central, e ainda assim as suas taxas de inflação podem distar vários pontos percentuais. A diferença é estrutural, não uma curiosidade estatística.
A área do euro tem uma moeda, um banco central e uma única meta de inflação de 2% — e, num dado mês, vinte e uma taxas de inflação diferentes. O intervalo entre a taxa nacional mais alta e a mais baixa é, muitas vezes, mais largo do que a própria meta. Não se trata de um problema de medição: a taxa de cada país é calculada pelo Eurostat segundo a mesma definição do IHPC. A divergência é real e tem causas estruturais e persistentes.
O cabaz de consumo é nacional
A metodologia do IHPC é harmonizada; o cabaz de compras não é. O índice de cada país pondera os produtos segundo aquilo que as suas famílias efetivamente compram. A energia e a alimentação pesam muito mais nos Estados-Membros de menor rendimento, pelo que um choque global nos preços da energia ou dos alimentos move a sua taxa global bem mais do que move a da Alemanha ou a da França. O mesmo preço do petróleo pode produzir taxas de inflação visivelmente diferentes só por via das ponderações.
A exposição à energia não se resume ao peso no cabaz
Para além do cabaz, os países diferem na forma como os preços da energia chegam às famílias: como são reguladas as tarifas da eletricidade, com que rapidez os preços grossistas passam para as faturas, quanto do aquecimento depende do gás ou de redes urbanas de calor, e se os governos limitam ou subsidiam os preços durante os choques. Dois vizinhos com ponderações de energia idênticas podem, ainda assim, divergir durante um ano ou mais, porque um redefine as tarifas reguladas uma vez por ano e o outro repercute todos os meses os preços à vista.
O crescimento de convergência faz subir os preços — por construção
Os membros do euro de menor rendimento que crescem mais depressa do que o centro tendem a registar uma inflação estruturalmente mais elevada — o efeito Balassa–Samuelson. A produtividade das suas indústrias exportadoras recupera depressa, os salários sobem em toda a economia e os preços dos serviços domésticos acompanham. É a convergência a funcionar como previsto: níveis de preços a aproximarem-se da média da área do euro manifestam-se, enquanto o processo dura, como inflação acima da média. É uma das principais razões pelas quais os Estados bálticos passaram grande parte da era do euro acima da taxa do conjunto da área.
Impostos, preços administrados e medidas pontuais
As alterações do IVA, os impostos especiais de consumo e os preços administrados — tarifas dos transportes públicos, rendas reguladas, tabaco — entram diretamente no IHPC. Uma única decisão orçamental pode somar ou subtrair uma fração visível de um ponto percentual à taxa de um país, deixando os vizinhos intocados. Estes efeitos dissipam-se ao fim de doze meses, mas impedem que as taxas nacionais alguma vez se movam em uníssono.
Serviços, salários e habitação
A inflação dos serviços é sobretudo doméstica: acompanha o crescimento dos salários locais, não os preços globais dos bens. Os países com mercados de trabalho sob pressão registam, durante anos a fio, uma inflação dos serviços mais elevada. Os custos da habitação também entram no índice de forma diferente consoante a economia — a dimensão e a regulação dos mercados de arrendamento variam enormemente —, pelo que o mesmo ambiente de taxas de juro produz uma inflação da habitação medida de maneira distinta de país para país.
Porque é que o BCE não pode eliminar o desvio
O Banco Central Europeu fixa uma única taxa de juro para toda a área e tem como meta a inflação da área do euro, não a de nenhum país em particular. Quando o agregado está na meta, com um membro sobreaquecido e outro arrefecido, o mandato do BCE está cumprido. Os instrumentos restantes estão nas mãos dos governos nacionais — a política orçamental, as decisões fiscais, as instituições de formação de salários, o desenho do mercado da energia. É por isso que os diferenciais de inflação persistem dentro de uma união monetária e que comparar Estados-Membros importa: a média da área do euro diz-lhe o que o BCE vê, enquanto as páginas por país e os rankings deste site lhe dizem o que as famílias de cada país realmente sentem.
Como ler o ranking
Ao comparar países, três hábitos mantêm o retrato honesto. Leia cada país face à média da área do euro, e não apenas face aos extremos. Verifique se um pico é generalizado ou impulsionado pela energia e pela alimentação, que são as componentes que revertem mais depressa. E lembre-se de que os valores mais recentes de alguns países são estimativas rápidas, revistas no espaço de semanas — uma pequena troca de posições no topo do ranking entre a estimativa rápida e a divulgação final é normal, não é notícia.